segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Morena jambo
Sua cor: preta não era, mulata tampouco. Possível comparar à morena jambo. Só os cabelos acentuavam traços da negrice. Feições simpáticas, sorriso tranqüilo, sabia irradiar bondade e amor a todos. Ao abrir o portão, só exclamações alegres se ouvia. Apertos de mãos e saudações felizes.
Foi casada com alemão, daí a morenice clara das filhas de bonitos cabelos. Estranha era a neta, cacheadinha bem loura, dourada igual ao sol.
Prestou a nós ótimos serviços. Comida simples e gostosa, cuken enfarofado coberto de fatias de banana. Era a glória do prazer de servir às visitas e aos da casa. Logo esvaziava-se a forma.
Arranjamos um maiô e a faceira foi à praia, sentir a onda do mar espumante. Visitava conhecidos da redondeza, onde era festejada e bem recebida. Tentava a sorte nos bichos, apostava seus palpites e alguns cobres chegavam!
Vina! Jamais esquecida nos trabalhos que viveu. Mulher corajosa, encarava o difícil e os moderados. Viveu, passou a existência digna, com bondade e amor, até partir para o céu. Com justiça e mérito. Valeu, Vinoca.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Paradoxo
O índio, na língua tupi, denominou essa madeira vermelha, abundante nos primórdio do Brasil, de ibirapitanga, arabutã, orabutã. O que chama a atenção é a designação de madeira dura e incorruptível. Atualmente, até paradoxo, pelo nome do nosso Brasil - país grandioso, pleno de riqueza natural, sendo explorado, roubado por outros povos e corruptos da própria terra. Merece aplausos o incentivo de plantar, alastrar a terra, torná-la mais verde, exuberante em folhas, parecendo plumas brilhantes.
Cachos
Bons tempos! Ali era só campo verdinho. Moças passavam a caminho das fábricas de fósforo e fitas. O tempo mudou, elas cresceram e a vida se transformou como tudo e para todos. Hoje, essas meninas já são amorosas vovós.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Gato jardineiro
História encontrada ao acaso, visando o amor de um pequeno animal. Envio a quem conseguir alcançar na internet: crianças, adultos e idosos.
Debaixo de laranjeira, o gato encontrava seu lugar aprazível e boa sombra para espreguiçar. Mas, certo dia, sua dona resolveu mudar a bela laranjeira para o fundo do quintal. Serradas as grossas raízes, donde verteram lágrimas (a seiva), ela chorou muito. Afofou a boa terra preta, auxiliada pelas patinhas do gato. Este compreendeu: aqui será meu novo lugar. Deus queira que vingue saudável a laranjeira.
Homens houve que compreendessem menos que o gato. Derrubaram um centenário Pau-Brasil, símbolo da nossa pátria, para abrir espaço à igreja nada bucólica da antiga demolida, quando deveria ser preservada com arte e amor à cidade. Este fato lamentável aconteceu na tropical cidade de São José do Rio Preto, local ensolarado, com frutas ótimas, onde vivemos Irineu e eu.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Como levar 30 minutos para fazer um Bauru
Por Mariana
No dia em que fui visitar a vó Dorinha para acertar os detalhes sobre este blog, ela foi logo me oferecendo comida. É natural, avós sempre fazem isso – a do lado paterno esperava os netos com uma garrafa de Wimi, daquelas de casco escuro, como não se fabrica mais. Para não dar trabalho, pensei em algo simples: um Bauru. Foi quando eu lembrei que, na casa da vó Dorinha, nada é tão simples quanto parece, e um mero sanduíche de queijo com tomate pode evocar memórias compridas, dando um tempero extra ao quitute.
Enquanto observava a vó andando de um lado pro outro da cozinha eu soube, por exemplo, que o pão mais indicado para tal obra culinária seria o pão-preto, devidamente armazenado na geladeira, vizinho do queijo mussarela. O tomate, bem vermelho, seria lavado com esmero e fatiado muito finamente, mas não mais fino que a salsinha – esta, picada até sua quase invisibilidade, embora já estivesse cortadinha e congelada, sendo necessário aguardar uns bons minutos até que degelasse. Depois da montagem meticulosa do sanduíche, é hora de untar o tostex – “comprado décadas atrás por 19 cruzeiros” e acender o fogo.
A conversa só é interrompida quando o pão começa a pretejar, para desespero da vó! E, antes de despejar no prato o vagaroso sanduíche, fique sabendo que este prato é inglês e tem mais de cem anos, foi usado pelo seu tataravô, Carlos Licheski, que morreu em 1924. Eu confiro no verso a inscrição no idioma de Shakespeare e estou pronta para devorar em três minutos o Bauru que minha vó levou meia hora para preparar, e que não teria sido tão saboroso se não fossem os detalhes da vó Dorinha.
Prólogo
E, então, chegamos à pessoa por trás deste blog. Ela se chama Doris, vive sozinha entre a biblioteca e a sala de piano no sexto andar de um edifício no Bigorrilho, acaba de completar 82 anos e também responde pela alcunha de vó. Vó Dorinha.
Quando eu era pequena, passava as férias de julho em sua casa no interior de São Paulo, recebendo altas doses de literatura pesada, frutas geladinhas e vento do ar-condicionado. Como ninguém tinha e-mail naquela época, era por carta que a vó e o vô se inteiravam das nossas notas no colégio e das novidades de Curitiba, cidade onde a vó nasceu semanas depois da neve de 1928. Foi também em Curitiba que Doris conheceu o marido, um estudante de medicina pé-rapado que morava numa pensão da rua Dr. Muricy lá pelos idos de 1945, e para onde ela voltou a morar 10 anos atrás, já viúva.
Pianista, dentista, professora e poeta nas horas vagas, Doris adora preencher cadernos de espiral com suas idéias e opiniões, frases que ouve por aí, memórias e curiosidades lidas em jornais. Este blog pretende ser uma espécie de caderno digital da vó Dorinha, um jeito da gente espiar seus escritos à distância, ficar por dentro do que a emociona ou a incomoda e ainda matar a saudade quando a falta de tempo impede uma visita de verdade.
Então limpem os pés antes de entrar e sejam bem-vindos a esse espaço, onde não falta música, literatura, palavras amigas e chá com torradas. Um espaço como a casa da vó Dorinha.
Abraços,
Mariana
Assinar:
Comentários (Atom)




