sábado, 18 de dezembro de 2010

Cila e o Poço

(Fato ocorrido há tempos, ouvido por narração.)

Chega assustada a pequena Francisca, contando à mãe: A Cila caiu no poço! Atarefada, a mãe entendeu: a tampa caiu no poço. “Deixa, quando o Luiz chegar da escola ele tira”. A pequena, alarmada, correu contar ao pai. Este, sem perder tempo: Não, foi a Cila que caiu no poço!
O pai, homem alto e decidido, entrou no poço, apoiando as pernas nos vãos das pedras até alcançar a menina assustada, batendo-se de encontro às pedras. Cila enlaçou-se ao pai fortemente e assim chegaram à borda. O mais grave foram as batidas da cabeça e costas de encontro às pedras. Com o desvelo dos pais, foi acalmada e limpa. A mãe não dispensou compressas das boas e conhecidas até hoje, plantas que curam. Assim, tempos mais tarde, continuaram a brincar com bonecas em lugar mais seguro.
Cila (Cecília), a protagonista do episódio, foi mãe, avó e bisavó – viveu 92 anos com serenidade divina.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Amor aos animais

Esse foi o traço maior de toda a família. Vaga lembrança minha, quando pequena, foi a Mica. Peluda e escura. Calo, aqui não cabe tristeza. Outros, por acaso, chegaram: o Perigoso, traseiro alto, provável fratura da coluna. O esperto, alegre e social Rex adorava ficar acomodado ao nosso lado no sofá da sala. Se continuar, o papo vai longe.
A Ceci, irmã caçula, trata duas cachorras com todo o cuidado. Uma, Suzy, apareceu enjeitada no portão do nosso irmão. Lá foi recebida e tratada da melhor maneira. Aconteceu dar cria a 10 cachorros. Todos saudáveis e encaminhados para doação. Exceto uma cachorrinha branca, bonita e forte. Bianca era a que ficou na casa. Cresceu junto com a preta Suzy, mais baixinha. Não se largam: brigas, brincadeiras e sonos nas respectivas caminhas, nada pequenas, pelo avantajado corpo das duas. Ao toque de chegada de alguém, correm latindo forte. É preciso isolar para o canil. Cuidam da dona, mas exigem colo e carinho, nada pouco.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Um momento especial para Lia

Lia na corda bamba
do caminho, sentia
que não caía

Pequena estatura
Pisava firme o chão
Subia à altura

Consertava goteira
Do telhado molhado
Bom trabalho desprendido
O melhor que existe
Para o caminho de deus

É só isso? É muito mais.
Fique sempre como é, humilde, simples, atenção redobrada – o melhor que você quer. Já dizia Shopenhauer, “a simplicidade é o selo da verdade”.

A avó polonesa

Vovó chega de Cracóvia, Polônia, fins do século 19. Só conheci na minha vida uma única avó. Ainda parece nítido, até hoje, seu caminhar na larga varanda de casa. Seu descanso na cadeira de balanço era o crochê, fazia belos xales e xalemantas de lã, para dias mais frios. Não saía sem o costumeiro “fichú”, como ela dizia, cobrindo a cabeça. Saias, à altura dos tornozelos. Completava uma bata branca, confortável simplicidade.

À chegada dos netos, ela pedia: toque ao piano algumas “krakoviak” ou “mazur”. Animava e cantarolava modinhas e rezas da sua infância. Assim foi sua passagem por todos nós.

À igreja polaca, só eu a acompanhava. Deu-me rosário de pedrinhas vermelhas, ensinava-me: de pé, cabeça baixa, de joelhos, sinal da cruz. Pai Nosso rezado por todos. Oração sempre terá lugar em nosso coração. Pensar, meditar com convicção só fará bem.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Sobre Frank Sinatra e Tom Jobim



(Escrito com base na Folha Ilustrada de 27/08/2010)

Corria o ano de 1957, quando Dolores Duran escreveu a letra Por Causa de Você. Tom ouviu e comentou: “Imagine, Dolores, Sinatra a cantar a nossa música!” Dolores completou, dizendo: “Cantará, sim, só quando o homem for à Lua”.
Bem, 12 anos depois, no dia 11 de fevereiro de 1969, Frank Sinatra gravou Don’t Ever Go Away (Por Causa de Você), de Tom Jobim e Dolores Duran – precisamente cinco meses e nove dias antes que o homem pisasse à Lua pela primeira vez, no dia 20 de julho de 1969.
Frank Sinatra e Tom Jobim – a química dos dois já incorporada, resultara no mágico LP de 10 faixas, no ano de 1967. A capa mostrava Sinatra ao microfone e Tom ao violão, envoltos numa névoa de cigarros perfeitamente adequada para a época. Por que Tom ao violão e não ao piano?
Os americanos de 1967 não estavam prontos para um mortífero “latin lover” que não tocasse violão. O 19º lugar do disco (na lista de 100), categoria LP, e os sete meses nas paradas, puxados pelo sucesso The Girl From Ipanema tornaram obrigatório um repeteco: 2º disco, Sinatra /Jobim. Com Tom ao violão, gravado em fevereiro de 1969, com 10 canções do repertório de Tom. Frank deixou seu selo em Se Todos Fossem Iguais a Você; Água de Beber; Triste; Wave; Samba de uma Nota Só; Estrada Branca e a citada Por Causa de Você. Por estas o LP estaria no papo. Sinatra implicou com as versões de Sabiá, Bonita e Desafinado. Mas só agora com Sinatra/Jobim, as 20 gravações saem em um só disco. Não se percebe nenhum esforço de Sinatra para cantar Sabiá e Bonita, ambas excruciantes de beleza. Quanto a ele e Tom parecerem se chamar de “my Love” em Desafinado, que besteira – os dois eram machos o suficiente para não esconder a admiração que sentiam um pelo outro.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Flocos de neve



O inverno agrada uns, mas desagrada outros: “saí do forno, entrei na geladeira”, dizem. É bom o frio quando o sol brilha no céu azul e dá-nos agradável calorzinho.
É ruim se persiste chuva ou garoa fina. Desagradável às crianças e a todos em geral. Afinal, é isso, é a lei da natureza.
Uma criança da sua caminha saltou correndo alcançar o peitoril da janela envidraçada com enfeite de renda bordada. Voz alertou: olha a neve! Seus olhos deram com incrível visão jamais conhecida. Eram retalhinhos, nem flocos, nem bolinhas, mas semelhante a losangos. Jamais esqueci a forma da neve. Sem chuva, sem vento, os pequenos losangos deslizavam calmos sobre o jasmim, o qual renasceu. Foi tal como conto de Tolstoi, logo descansaram no jardim. À essa criança foi sonho encantado, semelhante à mágica momentânea vinda do céu, enviada dos anjos.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Pensamentos



Há um motivo que dá sentido ao viver: procurar dar algo especial ao mundo que nos ajude a atravessar os bons e os maus momentos.

Nunca pense em construir algo grandioso. Lembre que a vida se compõe de pequenas coisas de inestimável valor.

Ame o próximo sem distinção, mas, antes, ame a si mesmo. Só então estará apto a servir alguém com dignidade.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Chandóca


Foi uma galinha ruiva que a fantasia da menina Sissa chamou de Chandóca. Cresceu entre outras, destacada pela cor avermelhada. Passeava devagar pelo quintal, diferente da esperteza das outras. Cacarejar jamais fora seu hábito. Chocar ovos, nunca. Sissa afeiçoou-se logo por ela. Acolhia-a aconchegada aos seus bracinhos meigamente.
Raramente visitava a casa da vizinha, dona Dirce. Esta estranhou a “postura” inédita da ave. Sempre calma, olhava o ambiente. Bem tratada, saía de volta à Sissa, esperada no portão. Para a panela, jamais iria. Viveu o tempo justo e maior possível de vida para a Chandóca.
É preciso saber cuidar, olhar com carinho aves e outros bichinhos. Todos dão valor ao amor que recebem e retribuem. Pena que a vida é curta, mas a lembrança viverá eternamente.

João Braz

Quem foi este homem? Conhecido tipo popular de Curitiba. Sua ocupação era limpar e dar brilho às placas metálicas afixadas às casas de comércio, bancos, jornais e outros, usados tempos atrás. Seu tipo físico: magrinho, cor preta, pernas tortas e os pés espalhados. Passava com força raspadeira sobre a calçada, produzindo faíscas para atrair a criançada. Estas, assustadas, gritavam: “é o pé espalhado”!
Meninas brincavam vestidas de moça – sapato alto, chapéu, alguma pinturinha no rosto. Tudo o que as tias elegantes usavam. Nesta altura, uma delas deu no pé, sumiu, correu o mais que pôde. Conseguiu entrar no armazém da dona Anna e do senhor José Sysak. A Lelinha, pois era ela, a priminha. Pálida e trêmula do susto, foi agradada por dona Anna, que lhe ofereceu azeitonas verdes. Ficou pitorescamente lembrada: dona Azeitona.
Muitas brincadeiras inventávamos nas férias: pular cordas, subir nas árvores, jogar diávalo, bilboquê, caracol ou amarelinha. Coisa boa era a balança, pendente da forte árvore bracatinga, ao lado da varanda. Frutas: pêra, pêssego, uva eram a delícia, também milho e amoras. Hora nada boa era voltar às suas casas. Pena! Mas voltarão em breve para novas brincadeiras.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Morena jambo


Sua cor: preta não era, mulata tampouco. Possível comparar à morena jambo. Só os cabelos acentuavam traços da negrice. Feições simpáticas, sorriso tranqüilo, sabia irradiar bondade e amor a todos. Ao abrir o portão, só exclamações alegres se ouvia. Apertos de mãos e saudações felizes.
Foi casada com alemão, daí a morenice clara das filhas de bonitos cabelos. Estranha era a neta, cacheadinha bem loura, dourada igual ao sol.
Prestou a nós ótimos serviços. Comida simples e gostosa, cuken enfarofado coberto de fatias de banana. Era a glória do prazer de servir às visitas e aos da casa. Logo esvaziava-se a forma.
Arranjamos um maiô e a faceira foi à praia, sentir a onda do mar espumante. Visitava conhecidos da redondeza, onde era festejada e bem recebida. Tentava a sorte nos bichos, apostava seus palpites e alguns cobres chegavam!
Vina! Jamais esquecida nos trabalhos que viveu. Mulher corajosa, encarava o difícil e os moderados. Viveu, passou a existência digna, com bondade e amor, até partir para o céu. Com justiça e mérito. Valeu, Vinoca.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Paradoxo


Enquanto espero o sinal abrir, vem sempre alguém oferecer mudas de árvores: várias, entre elas o quase raro pau-brasil. Tomo a planta e saio feliz.
O índio, na língua tupi, denominou essa madeira vermelha, abundante nos primórdio do Brasil, de ibirapitanga, arabutã, orabutã. O que chama a atenção é a designação de madeira dura e incorruptível. Atualmente, até paradoxo, pelo nome do nosso Brasil - país grandioso, pleno de riqueza natural, sendo explorado, roubado por outros povos e corruptos da própria terra. Merece aplausos o incentivo de plantar, alastrar a terra, torná-la mais verde, exuberante em folhas, parecendo plumas brilhantes.

Cachos


Duas primas: uma de oito, outra de nove. Cabelos lisos, ambas descendentes de europeus. A fantasia de crianças leva a querer o que não se tem. Apanhavam na marcenaria cavacos enrolados em forma de cachos. Sem perda de tempo, prenderam aos cabelos e saíram correndo para a rua. No pequeno “negócio”, compraram bolachas. Ninguém reparou nos cachos de cavacos. Dias depois, cedinho de bicicleta, rumaram à linha do “trem das galinhas”. Alguns passageiros, vendo crianças, atiravam boas balas.

Bons tempos! Ali era só campo verdinho. Moças passavam a caminho das fábricas de fósforo e fitas. O tempo mudou, elas cresceram e a vida se transformou como tudo e para todos. Hoje, essas meninas já são amorosas vovós.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Gato jardineiro


História encontrada ao acaso, visando o amor de um pequeno animal. Envio a quem conseguir alcançar na internet: crianças, adultos e idosos.
Debaixo de laranjeira, o gato encontrava seu lugar aprazível e boa sombra para espreguiçar. Mas, certo dia, sua dona resolveu mudar a bela laranjeira para o fundo do quintal. Serradas as grossas raízes, donde verteram lágrimas (a seiva), ela chorou muito. Afofou a boa terra preta, auxiliada pelas patinhas do gato. Este compreendeu: aqui será meu novo lugar. Deus queira que vingue saudável a laranjeira.
Homens houve que compreendessem menos que o gato. Derrubaram um centenário Pau-Brasil, símbolo da nossa pátria, para abrir espaço à igreja nada bucólica da antiga demolida, quando deveria ser preservada com arte e amor à cidade. Este fato lamentável aconteceu na tropical cidade de São José do Rio Preto, local ensolarado, com frutas ótimas, onde vivemos Irineu e eu.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Como levar 30 minutos para fazer um Bauru


Por Mariana

No dia em que fui visitar a vó Dorinha para acertar os detalhes sobre este blog, ela foi logo me oferecendo comida. É natural, avós sempre fazem isso – a do lado paterno esperava os netos com uma garrafa de Wimi, daquelas de casco escuro, como não se fabrica mais. Para não dar trabalho, pensei em algo simples: um Bauru. Foi quando eu lembrei que, na casa da vó Dorinha, nada é tão simples quanto parece, e um mero sanduíche de queijo com tomate pode evocar memórias compridas, dando um tempero extra ao quitute.
Enquanto observava a vó andando de um lado pro outro da cozinha eu soube, por exemplo, que o pão mais indicado para tal obra culinária seria o pão-preto, devidamente armazenado na geladeira, vizinho do queijo mussarela. O tomate, bem vermelho, seria lavado com esmero e fatiado muito finamente, mas não mais fino que a salsinha – esta, picada até sua quase invisibilidade, embora já estivesse cortadinha e congelada, sendo necessário aguardar uns bons minutos até que degelasse. Depois da montagem meticulosa do sanduíche, é hora de untar o tostex – “comprado décadas atrás por 19 cruzeiros” e acender o fogo.
A conversa só é interrompida quando o pão começa a pretejar, para desespero da vó! E, antes de despejar no prato o vagaroso sanduíche, fique sabendo que este prato é inglês e tem mais de cem anos, foi usado pelo seu tataravô, Carlos Licheski, que morreu em 1924. Eu confiro no verso a inscrição no idioma de Shakespeare e estou pronta para devorar em três minutos o Bauru que minha vó levou meia hora para preparar, e que não teria sido tão saboroso se não fossem os detalhes da vó Dorinha.

Prólogo


Há alguns dias soube que uma senhorinha de cabelos de algodão e 104 anos nas costas faleceu pacificamente em sua cama no asilo onde morava, no norte da Inglaterra. O que isso tem de extraordinário? Nada, exceto o fato de Ivy Bean postar mensagens diariamente no twitter, o que a tornava a usuária mais idosa da rede de microblog. Vou comer salada com presunto foi uma das últimas coisas que a simpática vovó comunicou aos seus 57 mil seguidores. Mas por que estou contando essa história? Bem, porque desde que soube da existência de Ivy passei a pensar como pode ser interessante para alguém com mais de 70 anos usar as redes sociais e interagir com pessoas com a metade da sua idade, contar o que se passa em sua mente e coração, compartilhar seu conhecimento e experiência gigantes da vida, que definitivamente não se resumem a links na web e vídeos no YouTube.
E, então, chegamos à pessoa por trás deste blog. Ela se chama Doris, vive sozinha entre a biblioteca e a sala de piano no sexto andar de um edifício no Bigorrilho, acaba de completar 82 anos e também responde pela alcunha de vó. Vó Dorinha.
Quando eu era pequena, passava as férias de julho em sua casa no interior de São Paulo, recebendo altas doses de literatura pesada, frutas geladinhas e vento do ar-condicionado. Como ninguém tinha e-mail naquela época, era por carta que a vó e o vô se inteiravam das nossas notas no colégio e das novidades de Curitiba, cidade onde a vó nasceu semanas depois da neve de 1928. Foi também em Curitiba que Doris conheceu o marido, um estudante de medicina pé-rapado que morava numa pensão da rua Dr. Muricy lá pelos idos de 1945, e para onde ela voltou a morar 10 anos atrás, já viúva.
Pianista, dentista, professora e poeta nas horas vagas, Doris adora preencher cadernos de espiral com suas idéias e opiniões, frases que ouve por aí, memórias e curiosidades lidas em jornais. Este blog pretende ser uma espécie de caderno digital da vó Dorinha, um jeito da gente espiar seus escritos à distância, ficar por dentro do que a emociona ou a incomoda e ainda matar a saudade quando a falta de tempo impede uma visita de verdade.
Então limpem os pés antes de entrar e sejam bem-vindos a esse espaço, onde não falta música, literatura, palavras amigas e chá com torradas. Um espaço como a casa da vó Dorinha.

Abraços,
Mariana