segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Prólogo


Há alguns dias soube que uma senhorinha de cabelos de algodão e 104 anos nas costas faleceu pacificamente em sua cama no asilo onde morava, no norte da Inglaterra. O que isso tem de extraordinário? Nada, exceto o fato de Ivy Bean postar mensagens diariamente no twitter, o que a tornava a usuária mais idosa da rede de microblog. Vou comer salada com presunto foi uma das últimas coisas que a simpática vovó comunicou aos seus 57 mil seguidores. Mas por que estou contando essa história? Bem, porque desde que soube da existência de Ivy passei a pensar como pode ser interessante para alguém com mais de 70 anos usar as redes sociais e interagir com pessoas com a metade da sua idade, contar o que se passa em sua mente e coração, compartilhar seu conhecimento e experiência gigantes da vida, que definitivamente não se resumem a links na web e vídeos no YouTube.
E, então, chegamos à pessoa por trás deste blog. Ela se chama Doris, vive sozinha entre a biblioteca e a sala de piano no sexto andar de um edifício no Bigorrilho, acaba de completar 82 anos e também responde pela alcunha de vó. Vó Dorinha.
Quando eu era pequena, passava as férias de julho em sua casa no interior de São Paulo, recebendo altas doses de literatura pesada, frutas geladinhas e vento do ar-condicionado. Como ninguém tinha e-mail naquela época, era por carta que a vó e o vô se inteiravam das nossas notas no colégio e das novidades de Curitiba, cidade onde a vó nasceu semanas depois da neve de 1928. Foi também em Curitiba que Doris conheceu o marido, um estudante de medicina pé-rapado que morava numa pensão da rua Dr. Muricy lá pelos idos de 1945, e para onde ela voltou a morar 10 anos atrás, já viúva.
Pianista, dentista, professora e poeta nas horas vagas, Doris adora preencher cadernos de espiral com suas idéias e opiniões, frases que ouve por aí, memórias e curiosidades lidas em jornais. Este blog pretende ser uma espécie de caderno digital da vó Dorinha, um jeito da gente espiar seus escritos à distância, ficar por dentro do que a emociona ou a incomoda e ainda matar a saudade quando a falta de tempo impede uma visita de verdade.
Então limpem os pés antes de entrar e sejam bem-vindos a esse espaço, onde não falta música, literatura, palavras amigas e chá com torradas. Um espaço como a casa da vó Dorinha.

Abraços,
Mariana

Um comentário:

  1. Ai que saudades do chá da Vó Dorinha!!!
    Sempre hospitaleira, a Vó Dorinha irá recepcionar todo internauta muito bem.
    Linda iniciativa!
    bjo
    Ana Carol

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