segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Como levar 30 minutos para fazer um Bauru


Por Mariana

No dia em que fui visitar a vó Dorinha para acertar os detalhes sobre este blog, ela foi logo me oferecendo comida. É natural, avós sempre fazem isso – a do lado paterno esperava os netos com uma garrafa de Wimi, daquelas de casco escuro, como não se fabrica mais. Para não dar trabalho, pensei em algo simples: um Bauru. Foi quando eu lembrei que, na casa da vó Dorinha, nada é tão simples quanto parece, e um mero sanduíche de queijo com tomate pode evocar memórias compridas, dando um tempero extra ao quitute.
Enquanto observava a vó andando de um lado pro outro da cozinha eu soube, por exemplo, que o pão mais indicado para tal obra culinária seria o pão-preto, devidamente armazenado na geladeira, vizinho do queijo mussarela. O tomate, bem vermelho, seria lavado com esmero e fatiado muito finamente, mas não mais fino que a salsinha – esta, picada até sua quase invisibilidade, embora já estivesse cortadinha e congelada, sendo necessário aguardar uns bons minutos até que degelasse. Depois da montagem meticulosa do sanduíche, é hora de untar o tostex – “comprado décadas atrás por 19 cruzeiros” e acender o fogo.
A conversa só é interrompida quando o pão começa a pretejar, para desespero da vó! E, antes de despejar no prato o vagaroso sanduíche, fique sabendo que este prato é inglês e tem mais de cem anos, foi usado pelo seu tataravô, Carlos Licheski, que morreu em 1924. Eu confiro no verso a inscrição no idioma de Shakespeare e estou pronta para devorar em três minutos o Bauru que minha vó levou meia hora para preparar, e que não teria sido tão saboroso se não fossem os detalhes da vó Dorinha.

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